sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

SOCIOLOGIA: Domenico De Masi (Itália / 1938 - hoje)

"O telefone celular, a televisão e a Internet já redefiniram a nossa relação com o espaço e com o tempo... A potência crescente dos computadores já alterou a nossa percepção do mundo. É portanto provável que a adoção de tecnologias ainda mais novas comporte uma maior tolerância em relação à diversidade, feedbacks mais rápidos e intensos, velozes mudanças de opinião e o nascimento de novos lobbies sociais e novos grupos de pressão, digressão das comunidades tradicionais... recomposições de novas comunidades fundadas no compartilhamento dos gostos, dos interesses e das orientações e na busca de soluções 'sob medida'."

Domenico de Masi

"Por outo lado, as oportunidades devidas ao aumento das informações disponíveis serão colhidas numa medida diferente, segundo as capacidades socioeconômicas, culturais, críticas, de filtragem e de seleção de cada um dos sujeitos sociais, com o perigo de uma posterior bifurcação entre o mundo dos privilegiados e dos excluídos (digital devide).


"As tecnologias da informação permitirão, por uma parte, formas de democracia telemática, direta, de tempo real; por outra, tentarão uma elite muito restrita a dominar todo o sistema social, favorecida pelo poder manipulador dos seus mass midia e pelo desinteresse, inculado sobretudo nos jovens, em relação ao exercício da política e dos valores de solidariedade. A New Economy subordinará a política à economia e a economia às finaças favorecida pelo crescente distanciamento entre a débil difusão da cultura humanista, cada vez mais desprezada, e a forte propagação da cultura técnica, sempre mais apreciada, causando a irresistível penetração da cultura de massa, posto avançado da mercantilização."

De Masi em 2002 já alertava-nos sobre os perigos do consumo de cultura de massa, processada em larga escala, de fácil digestão para a maior parte da população, criando alienação generalizada na maior parte das pessoas, principalmente nós, que vivemos no Terceiro Mundo. No Brasil o discurso televisivo e da maior parte das publicações e radiodifusões tem um nível baixíssimo, estampando ícones criados da noite para o dia, transformando a promessa de geração de empregos e crescimento da economia como redentores, uma espécie de tranquilizante mental e psíquico. Mas ao analisar minuciosamente os efeitos deste fenômeno social que tem menos de 60 anos, é visível uma série de doenças e desvios de comportamento sociais, inversão de valores e falta de espiritualidade em níveis patológicos alarmantes.

Como complemento e conclusão para este fabuloso e esclarecedor discurso de Domenico, selecionei um trecho de O Ponto de Mutação, livro escrito pelo gênio austríaco Fritjof Capra:

"Nos Estados Unidos, onde o consumo e o desperdício excessivos converteram-se em um modo de vida, 5% da população do mundo consomem atualmente um terço de seus recursos, com o consumo de energia per capita que é cerca do dobro do da maioria dos países europeus. Simultaneamente, as frustrações criadas e alimentadas por doses maciças de publicidade, combinadas com a injustiça social dentro da nação, contribuem para uma criminalidade e uma violência crescentes, além de outras patologias sociais. Esse triste estado de coisas é bem ilustrado pelo conteúdo esquizofrênico das revistas semanais. Metade das páginas estão cheias de histórias sombrias acerca de crimes violentos, desastre econômico, tensão política internacional e a corrida em direção à destruição global, enquanto a outra metade retrata gente feliz e despreocupada através de maços de cigarros, garrafas de bebidas alcoólicas e refulgentes carros novos. A publicidade na televisão influencia o conteúdo e a forma de todos os programas, incluindo os 'shows de notícias', e usa o tremendo poder sugestivo deste veículo - ligado durante seis horas e meia diárias pela família americana média - para modelar as imagens das pessoas, distorcer nestas o sentido da realidade e determinar suas opiniões, seus gostos e seu comportamento. A finalidade exclusiva desta prática perigosa é condicionar a audiência a comprar produtos anunciados antes, depois e durante cada programa."


Fritjof Capra

É interessante salientar que essa imagem do estilo de vida americano foi feita por Capra na década de 80, como uma doença do nosso tempo, e está cada vez mais agravada. Além disso teve um reflexo direto no comportamento dos brasileiros, que reproduzem este estilo de vida massificado e superficial, como podemos comprovar em qualquer rua das cidades nacionais.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

POESIA: Olavo Bilac (Brasil - 1865-1918)

Quanto ardor, paixão, entusiasmo de vida inunda Olavo Bilac. Ainda que a impossibilidade de atingir tal estado de consciência na juventude possa levar-lhe à melancolia, uma força motivadora, um sentimento expresso em versos é lançado sobre nós criaturas, para que possamos vislumbrar e inspirar-nos no brilho de sua cintilante astúcia.

Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.
Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!
Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,
Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!


Olavo Bilac


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

LITERATURA: José Saramago (Portugal / 1922 - 2010)

"Estranhos somos todos, até nós que aqui estamos, A quem te referes, A ti e a mim, ao teu senso comum e a ti mesmo, raramente nos encontramos para conversar, lá muito de tarde em tarde, e, se quisermos ser sinceros, só poucas vezes valeu a pena, Por minha culpa, Também por culpa minha, estamos obrigados por natureza ou condição a seguir caminhos paralelos, mas a distância que nos separa, ou divide, é tão grande que na maior parte dos casos não nos ouvimos um ao outro, Ouço-te agora, Tratou-se de uma emergência, as emergências aproximam, O que tiver de ser, será, Conheço essa filosofia, costumam chamar-lhe predestinação, fatalismo, fado, mas o que realmente significa é que farás o que te der na real gana, como sempre, Significa que farei aquilo que tiver de fazer, nada menos, Há pessoas para quem é o mesmo aquilo que fizeram e aquilo que pensaram que teriam que fazer, Ao contrário do que julga o senso comum, as coisas da vontade nunca são simples, o que é simples é a indecisão, a incerteza, a irresolução..."


José Saramago

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

METAFÍSICA: Fritjof Capra (Áustria / 1939 - hoje)

Poderia e ainda irei me alongar sobre Capra aqui no blog. Mas por agora o resumo é que sua obra, na minha opinião, significa a cura total e plena, para os indivíduos, sociedade e planeta Terra. Se conseguíssemos reverter o ritmo frenético no qual nosso planetinha está imerso e aplicássemos os ensinamentos e descobertas dele, seríamos uma raça muito mais evoluída.


"A fim de possibilitar aos cientistas descreverem matematicamente a natureza, Galileu postulou que eles deveriam restringir-se ao estudo das propriedades essenciais dos corpos materiais - formas, quantidades e movimento -, as quais podiam ser medidas e qualificadas. Outras propriedades como som, cor, sabor ou cheiro, eram meramente projeções mentais subjetivas que deveriam ser excluídas do domínio da ciência. A estratégia de Galileu de dirigir a atenção do cientista para as propriedades quantificáveis da matéria foi extremamente bem sucedida em toda a ciência moderna, mas também exigiu um pesado ônus, como nos recorda enfaticamente o psiquiatra R. D. Laing: 'Perderam-se a visão, o som, o gosto, o tato e o olfato, e com eles foram-se também a sensibilidade estética e ética, os valores, a qualidade, a forma; todos os sentimentos, motivos, intenções, a alma, a consciência, o espírito. A experiência como tal foi expulsa do domínio do discurso científico'. Segundo Laing, nada mudou mais nosso mundo nos últimos quatrocentos anos do que a obsessão dos cientistas pela medição e pela quantificação"



Fritjof Capra

domingo, 11 de dezembro de 2011

FILOSOFIA: Anton Dohrn (Alemanha / Nápoles 1840/1909)

Um gênio em todas as dimensões, Anton Dohrn foi um grande adepto e seguidor das idéias de Darwin, mas muito mais que isto, organizou, criou e administrou de forma espetacular um dos primeiros institutos de pesquisa biológica, botânica e em várias outras áreas. Suas contribuições para a evolução da ciência, de métodos, aparelhos para investigação da evolução das espécies e sua dedicação a uma causa superior são imensuráveis.


Em uma citação de seus escritos pessoais, um trecho destacou-se dos demais, dando brilho e trazendo luz à minha mente. Uma forma de expressar parte do meu sentimento com relação ao organismo social instituído na sociedade e uma centelha do que sinto com relação ao meu trabalho.


"A verdade é que me iludo dizendo que o verdadeiro objetivo da minha vida era o de criar este grande laboratório. Pois isso não é verdade. Eu queria algo diferente. Quem sabe se alcançarei? Eu queria criar espiritualmente, viver espiritualmente, concluir minha existência numa atmosfera de civilização interior. Mas nos tempos de hoje isso é mais difícil do que antes: a selvagem e apressada vida de hoje arrasta consigo até aqueles que tentam opor resistência... os arrasta e só Deus sabe para onde."


Anton Dohrn

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

FILOSOFIA: Bertrand Russell (Inglaterra / 1872-1970)

Bertrand Russel foi um grande pensador, crítico da corrupção, dos vícios, do capitalismo exacerbado e de todos os costumes nocivos ao bem estar do ser humano e sociedade. Além de filósofo, foi excelente matemático escritor e polemista. Em 1950 lhe foi outorgado um Prêmio Nobel por seus notáveis escritos sobre ideais humanitários, de liberdade de pensamento e expressão. Mobilizou manifestantes e estudantes de Cambridge contra a bomba atômica e os sicilianos contra a máfia.

Bertrand Russell



Dentre os 15 artigos publicados na sua coletânea intitulada "O Elogio ao Ócio", destaco esta passagem em que faz uma crítica feroz ao comportamento de consumo de grande parte de uma minoria abastada. Um câncer social que já era criticado em meados da década de 1930 e até hoje permanece insolúvel e nocivo.




OS RICOS DESEMPREGADOS 


Os males do desemprego são conhecidos por todos. As agruras dos trabalhadores, as perdas para a comunidade e os efeitos desmoralizantes da impossibilidade de arranjar trabalho são temas tão familiares que é desnecessário nos alongarmos sobre eles.

Os desmpregados ricos são um outro tipo de mal. O mundo está cheio de gente desocupada, a maioria mulheres, que tem pouca educação, muito dinheiro e, conseqüentemente, uma enorme presunção. Sua riqueza lhes permite fazer devotar ao próprio conforto uma grande quantidade de trabalho. Embora raramente possuam verdadeira cultura, elas são as grandes benfeitoras das artes, que provavelmente só lhes agradam quando são de má qualidade. Sua inutilidade as impele a um sentimento irreal, o que as leva a não apreciar a sinceridade e a exercer uma influência nefasta sobre a cultura. Nos Estados Unidos, em especial, onde os homens que ganham dinheiro vivem ocupados demais para gastá-lo consigo mesmos, a cultura é amplamente dominada pelas mulheres que só sabem se dar ao respeito reivindicando para os maridos o domínio da arte de gastar dinheiro.

A existência de ricos desempregados tem outras conseqüências lamentáveis. Embora a tendência moderna seja, nas indústrias mais importantes, de existirem poucas grandes empresas em vez de muitas pequenas empresas, ainda há várias exceções a esta regra. Veja-se, por exemplo, a quantidade de lojas desnecessárias que há em Londres. Em todos os lugares onde as mulheres ricas fazem suas compras existem inúmeras lojas de chapéus, geralmente mantidas por condessas russas, cada uma se dizendo mais refinada que as outras. Suas clientes vagueiam desta para a seguinte, gastando horas e horas numa compra que deveria ser questão de minutos. O trabalho dos que atendem nas lojas e o tempo dos que compram nelas é igualmente jogado fora. E há o mal adicional de que o sustento de muita gente depende deste tipo de futilidade. O poder de compra dos muito ricos gera ao seu redor um grande número de parasitas que temem ficar arruinados se não houver mais gente rica e desocupada para comprar seus artigos. São pessoas que sofrem moral, intelectual e artisticamente de uma insolúvel dependência do poder desses tolos. 



quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

MÚSICA: Bon Iver (Estados Unidos - 2011)

Neste dia recebo através da assinatura de conteúdo de Benjamin Francis Leftwich a notícia: Bon Iver é indicado a 4 Grammys. Não é música apenas. É a artéria pulsando, levando vida às células dos ouvintes. As letras são belíssimas, imprevisíveis, puras, atingem o mais alto grau da espiritualidade humana. Além de serem únicas, mesclam-se à uma melodia madura, leve, orgânica. A lenda diz que todo o álbum, entre melodias e versos foram compostas em uma casa no campo pelo artista Justin Vernon, durante um tempo de reclusão exclusivamente dedicando-se à isto. De qualquer forma, sente-se nitidamente que o clima incitado na obra, flui perfeitamente nas passagens de faixa para faixa. Bon Iver é definitivamente mais que música, é a conexão com o espírito e os espíritos de toda a vida na Terra.

Justin Vernon - Bon Iver


sábado, 29 de outubro de 2011

FILOSOFIA: Lin Yutang (China / 1895-1976)

Lin Yutang


Certa vez li que o verdadeiro filósofo não precisa de muitos bens para se satisfazer, pois consegue enriquecer com significado as poucas coisas que possui. É uma satisfação interna, de estar bem com o corpo e o espírito. Neste quesito Lin Yutang consegue atingir a plenitude da felicidade, pois a natureza, as sensações conseguem  lhe preencher. Seus escritos são belíssimos, sua prosa é carnal e tenra.


"Para mim, os momentos verdadeiramente felizes são: quando me levanto pela manhã após uma noite de perfeito sono e aspiro o ar matinal e há uma expansibilidade nos pulmões, que me inclina a inalar profundamente, e sinto uma bela sensação de movimento em torno à pele e aos músculos do peito, e quando, por conseguinte, estou apto para o trabalho; ou quando viajo por um dia de verão, com a garganta seca, e vejo um lindo arroio límpido, cujo bisbilho me faz feliz, e tiro os sapatos e as meias e mergulho os pés na deliciosa água fresca; ou quando, depois de um jantar perfeito, me estiro em uma poltrona, e em meu redor não há ninguém que me desagrade e a conversação marcha a passo leve para um destino ignorado, e estou física e espiritualmente em paz com o mundo; ou quando em uma tarde de verão vejo negras nuvens que se reúnem no horizonte e sei que com certeza antes de um quarto de hora cairá uma bátega estival, mas como me envergonha que me vejam sair para a chuva sem guarda-chuva, corro furtivamente a receber o aguaceiro em meio aos campos e volto para casa empapado, calado, e digo à minha família, simplesmente, que fui surpreendido pela chuva."

Como é rico quem consegue apreciar as purezas e os encantos da vida e da natureza. Quão feliz soa a vida de Lin Yutang ao desfrutar tão intensa e verdadeiramente as coisas simples, que nos são disponíveis, que estão abundantes ainda em nosso Planeta. E eis que ele segue, projetando agora essa atribuição de valores para seus semelhantes, os humanos, desfrutando o gozo da vida através dos sentidos.


"Tal como me é impossível dizer se amo física ou espiritualmente meus filhos, quando ouço suas vozes ou quando vejo suas perninhas, também sou inteiramente incapaz, entre as alegrias do espírito e as alegrias da carne. Ama alguém espiritualmente uma mulher sem amá-la fisicamente? E será tão fácil para um homem analisar e separar os encantos da mulher que ama, como seu riso, seus sorrisos, a forma que tem de inclinar a cabeça, certa atitude ante as coisas? Por sermos feitos desta carne mortal, é demasiado tênue a divisão que separa a nossa carne do nosso espírito; e o mundo do espírito, com a sua emoção mais fina e sua maior apreciação da beleza espiritual, não pode ser alcançado senão com nossos sentidos. Não há moralidade ou imoralidade nos sentidos do tato, do ouvido e da vista. É muito provável que a nossa perda da capacidade para o gozo das alegrias positivas da vida se deva sobretudo à diminuição da sensibilidade de nossos sentidos, e ao fato de não os utilizarmos de forma completa."

sábado, 22 de outubro de 2011

METAFÍSICA: Fritjof Capra (Áustria / 1939 - hoje)

Fritjof Capra

" O nascimento da ciência moderna foi precedido e acompanhado por um desenvolvimento do pensamento filosófico que deu origem a uma formulação extrema do dualismo espírito/matéria. Essa formulação veio à tona no século XVII, através da filosofia de René Descartes. Para este filósofo, a visão da natureza derivava de uma divisão fundamental em dois reinos separados e independentes: o da mente (res cogitans) e o da matéria (res extensa). A divisão "cartesiana" permitiu aos cientistas tratar a matéria como algo morto e inteiramente apartado de si mesmos, vendo o mundo material como uma vasta quantidade de objetos reunidos numa máquina de grandes proporções. Essa visão mecanicista do mundo foi sustentada por Isaac Newton, que elaborou sua Mecânica a partir de tais fundamentos, tornando-a o alicerce da Física clássica. Da segunda metade do século XVII até o fim do séc. XIX, o modelo mecanicista newtoniano do universo dominou todo o pensamento científico. Esse modelo caminhava paralelamente com a imagem de um Deus monárquico que, das alturas governava o mundo, impondo-lhe a lei divina. As leis fundamentais da natureza, objeto da pesquisa científica, eram então encaradas como as leis de Deus, ou seja, invariáveis e ternas, às quais o mundo se achava submetido.

A filosofia de Descartes não se mostrou importante apenas em termos do desenvolvimento da Física clássica; ela exerce, até hoje, uma tremenda influência sobre o modo de pensar ocidental. A famosa frase cartesiana Cogito ergo sum ("penso, logo existo") tem levado o homem ocidental a igualar sua identidade apenas à sua mente, em vez de igualá-lo a todo o seu organismo. Em conseqüência da divisão cartesiana, indivíduos, na sua maioria, têm consciência de si mesmos como egos isolados existindo "dentro" de seus corpos. A mente foi separada do corpo, recebendo a inútil tarefa de controlá-lo, causando assim um conflito aparente entre a vontade consciente e os instintos involuntários. Posteriormente, cada indivíduo foi dividido num grande número de compartimentos isolados de acordo com as atividades que exerce, seu talento, seus sentimentos, suas crenças, etc., todos estes engajados em conflitos intermináveis, geradores de constante confusão meta-física e frustração.

Essa fragmentação interna espelha nossa visão do mundo "exterior", que é encarado como sendo constituído de uma imensa quantidade de objetos e fatos isolados. O ambiente natural é tratado como se consistisse em partes separadas a serem exploradas por diferentes grupos de interesses. Essa visão fragmentada é ainda mais ampliada quando se chega à sociedade, dividida em diferentes nações, raças, grupos políticos e religiosos. A crença de que todos esses fragmentos - em nós mesmos, em nosso ambiente e em nossa sociedade - são efetivamente isolados pode ser encarada como a razão essencial para a atual série de crises sociais, ecológicas e culturais. Essa crença tem nos alienado da natureza e dos demais seres humanos, gerando uma distribuição absurdamente injusta de recursos naturais e dando origem à desordem econômica e política, a uma onda crescente de violência (espontânea e institucionalizada) e a um meio ambiente feio e poluído, no qual a vida não raro se torna física e mentalmente insalubre."

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

NOVOS HORIZONTES - Bruno Maya

O Blog Íntimo Sentimento tem quase nove meses e é com imensa satisfação que gostaria de apresentar o mais novo colaborador, Bruno Maya. Além de um grande amigo e irmão, um ser esplêndido com quem tenho aprendido a viver mais plenamente, mais intensamente. Também é verdadeiro catalizador de um estado de espírito iluminado, ávido por conhecimento e por usufruir da dádiva da vida. Grande amigo, seja bem vindo e compartilhe comigo e com os leitores suas incomensuráveis descobertas. Obrigado.

Bruno Maya

(conheça o trabalho fotográfico autoral de Bruno Maya no site: http://assimqeurevelar.com/)

sábado, 1 de outubro de 2011

FILOSOFIA: Henry David Thoreau (EUA / 1817 - 1862)

"Aquele que pode lidar com suas idéias como com um material, transformando-as em poemas que deliciarão as próximas gerações, é que é um homem maior e de mais raro vigor. Um homem enérgico é aquele em quem nascem pensamentos sutis e poéticos... Quantos são os que tem liberdade de pensamento? Que estão livres do medo, da perturbação, dos preconceitos? 999 em 1000 são perfeitos escravos. Quantos são os que exercem as mais altas faculdades humanas?... Conquista-se o destino pelo pensamento. Não há trabalho mais valioso do que conceber um pensamento sobre esta vida e depois dar-lhe expressão."


Thoreau

domingo, 18 de setembro de 2011

SOCIOLOGIA: Domenico De Masi (Itália / 1938 - hoje)

Se nossa sociedade pensasse, agisse e vivesse desta forma, todas as pessoas, não seria então um mundo perfeito?!


"Outros prováveis fatores da criatividade são de ordem cultural: uma língua complexa, rica. flexível, musical... O desprezo pelas atividades físicas e executivas em prol daquelas autônomas e intelectuais; a rejeição da corrida à riqueza material e o desinteresse pelo luxo; a atitude em relação à apreciação das alegrias simples e genuínas da vida cotidiana, em lugar daquelas sofisticadas de uma vida artificial; a predisposição ao belo, ao bom gosto, à busca da verdade, à composição ao progresso filosófico e modelo existencial em que inspirar o cotidiano, uma forma de pensamento capaz de mesclar a intuição com a reflexão, o procedimento sistemático com o caótico; uma educação voltada mais para o ócio criativo do que para o ativismo atarefado e competitivo."


Domenico De Masi

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

MÚSICA: The Temper Trap (Austrália - 2009)

Há meses escuto "Science of Fear", música da banda australiana The Temper Trap. Arrisco dizer que é uma das composições com maior simbologia entranhada em seus versos, mas isto deve-se bastante à minha interpretação pessoal, pois como o conteúdo pode ser lido de forma subjetiva, um outro intérprete pode ter uma diferente percepção. Dias se passaram desde que pretendo escrever este ensaio.



Vídeo da música no You Tube:
http://www.youtube.com/watch?v=m1vkXxn65ec

breaks on / breaks on
the car is running empty
breaks on breaks on
the car is running empty
downhill / head on
this crash is coming slowly
downhill / head on
this crash is coming slowly move
or watch the slow death of your way of life


Para mim, fica perfeitamente claro que na última sentença do primeiro verso o carro somos nós, as pessoas vivendo em uma sociedade doente, bebendo e fumando em excesso, se agredindo, acreditando em mentiras impostas por imperialistas, indústrias culturais podres, empresas farmacêuticas gananciosas, petrolíferas, alimentos contaminados. Breaks on, porque o carro não tem controle, the car is running empty, ladeira abaixo e à frente na velocidade máxima. This crash is coming move... É para reavaliarmos o rumo do mundo, pois ele está prestes a entrar em colapso, nosso corpo, nossas atitudes. Se não nos movermos, ficaremos olhando nosso estilo de vida que está levando à morte. Um meio de vida assassino.




there's a science to fear
it plagues my mind
and it keeps us right here
and it keeps us here


É a ciência do medo, que nos trouxe até aqui, até este ponto, onde o carro voa para a morte, sem ninguém ao volante, pois a mente foi lavada, não pensamos, não agimos, apenas aceitamos as imposições. A ciência do medo nos paralisou e nos trouxe até aqui, eu e você agora, onde ouvimos esta mensagem.



my ears / my eyes
my brain is slowly busting
black smoke / red sky
the television's saying downhill
head on another crash is coming move
or watch the murder of you way of life



Meus olhos, ouvidos e cérebro pifaram, soltam fumaça preta, enquanto o céu está vermelho, contaminado de poluição. E a televisão incentiva, dizendo "é isso ai acelera", sem ninguém ao volante, pois já condicionamos você a ser assim. E vem a colisão, ou você pode olhar para o seu estilo de vida destrutivo, que parasita nossas mentes.

there's a science to fear
it plagues my mind
and it keeps us right here
and the less we know
the more we sit still
my baby's stuck on a road
that lead to nowhere
nowhere, nowhere.


É a ciência do medo, paralizando e contaminando nosso cérebro, e nos deixa trancados aqui, presos, estagnados. And the less we know, quanto menos buscamos conhecimento, quando menos procuramos saber os fatores a que estamos sujeitos, fatores cósmicos, científicos, espirituais, de saúde, nervosos, pessoais, psicológicos e tudo que há para ser aprendido e compartilhado, então ficamos aqui, na mesma, sem evoluir. My baby stuck on a road, aqui ele faz um apelo, para alguém que ama e que não pode compreender tudo isso, que não buscou o conhecimento. Alguém que poderia ter evitado a colisão, o colapso social ou pessoal a que estamos sujeitos, mas isso não aconteceu, baby ficou preso na estrada que leva a lugar nenhum - it leads to nowhere.



Há um interlúdio instrumental onde os músicos exteriorizam toda energia e importância da mensagem, em bateria, baixo, guitarra para repetir o verso. Nas imagens do clipe fica evidente a simbologia, pois o planeta tem cores surreais, é um território apocalíptico, enquanto nas colisões os corpos dos integrantes do The Temper Trap são arremessados em meio aos cacos de vidro. Ao final, o Sol - ou uma outra estrela - engole a Terra, resumindo a destruição da vida terrestre, que foi patrocinada pela ganância humana e a falta de compaixão pela Natureza e seus semelhantes.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

MÚSICA: Benjamin Francis Leftwich (Inglaterra / 2011)

Sublime e etéreo. Quando a sonoridade e a poesia da música "Atlas Hands" entra pelos dutos auditivos e encara sua alma, o corpo reverbera em uma sintonia divina. A pureza aflora nos versos do músico Benjamin Francis Leftwich, sua voz é suave e doce e faz seu propósito mexer nos confins de nossos mais íntimos sentimentos.

"Atlas Hands" me fisgou de imediato, era impossível não deixar a alma fluir na melodia, um agradecimento especial à Scheila Mello que está sempre apresentando músicas maravilhosas. Ouvindo som é possível viajar no profundo de seu próprio ser, pois Benjamin não entrega pronta a mensagem, ela está dentro de cada um de nós. Basta ativá-la.

Benjamin Francis Leftwich

Lindo clipe de Atlas Hands
http://www.youtube.com/watch?v=Pyue2N1XZ0M


Atlas Hands Lyrics
Take me to the docks, there's a ship without a name
It is sailing to the middle of the sea
The water there is deeper than anything you've ever seen
...Jump right in and swim until you're free

I will remember your face
'Cause I am still in love with that place
But when the stars are the only things we share
Will you be there?

Money came like rain to your hands while you were waiting
For that cold long promise to appear
People in the churches started singing above their hands
They say "My God is a good God and he cares"

I will remember your face
'Cause I am still in love with that place
When the stars are the only things we share
Will you be there?

I've got a plan
I've got an atlas in my hands
I'm gonna turn when I listen to the lessons that I've learned




segunda-feira, 15 de agosto de 2011

FILME: Perfume: The Story of a Murderer (2006)

Intenso, perturbador, viceral. Este filme traz harmonia através da música clássica, atuações fabulosas e fotografia com riquíssima textura para sintetizar arte. Ousa ir além, causando perplexidade e calafrios em espectadores mais sensíveis. Perfume libera os sentidos e reflexões para temas obscuros e coloca-os em contraste, chocando o social e o ancestral. Ter sido feito em inglês pode ser seu único pecado, porém não diminui em nada seu brilho, apoiado em uma fantástica execução de cenas e edições. Ecoa durante muito tempo, reverberando nos confins do intelecto humano.



domingo, 24 de julho de 2011

SOCIOLOGIA: Domenico De Masi (Itália / 1938 - hoje)

Há anos sou um grande entusiasta de Domenico De Masi, pela sua sublime criatividade e visão do futuro. Seus livros são compêndios imperdíveis de conhecimento histórico e humano, físico e emocional. A cultura em seus escritos aflora em todas as frases e páginas. Suas idéias envolvem diversas ciências como arquitetura, história, filosofia e muitas vezes literatura. De Masi divaga citando gênios da humanidade para criar uma linguagem própria e forjar suas conclusões sobre o cenário atual da humanidade no planeta e postular o futuro.

Acabo de ler a introdução da sua obra intitulada "Criatividade e Grupos Criativos".
Encantei-me por esta passagem:

"Vivemos por muito mais tempo que nossos ancestrais; a ciência nos convence a ter uma expectativa de vida não somente mais longa mas também mais sadia; dispomos de prodigiosas próteses tecnológicas, capazes de multiplicar a potência de nossos sentidos, a velocidade dos nossos cálculos, o alcance da nossa memória e o número das nossas relações. Porém, a consciência e o usufruto dessas novas possibilidades não dependem da existência das mesmas, mas da disposição cultural de cada indivíduo de reconhecê-las e apreciá-las em todas as suas dimensões. E esta disposição, por sua vez, é influenciada pelo clima geral que há em torno, pela atitude diante da vida, pela confiança nos demais, assim como pelo hábito de confrontar preconceitos com os dados de fato; em suma, por aquele conjunto de opiniões, emoções e sentimentos que, bombardeados pela mídia, acabam adoçando a nossa vida com a serenidade ou afogando-a na angústia."



Domenico de Masi

quinta-feira, 9 de junho de 2011

LITERATURA: Carl Sagan (EUA / 1934-1996)

Voltando a citar Carl Sagan, porém desta vez ambientando levemente sobre o romance "Contato", onde dois cientistas, Ellie e Der Heer apaixonam-se. A reunião de seus intelectos numa atmosfera romântica, límpida e vívida transforma suas observações em verdadeiras aulas de como celebrar e entender a vida.

"Der Heer fizera com que uma linda lagarta azul subisse num pauzinho. O animal avançava resolutamente, ondulando o corpo iridescente com movimentos de seus catorze pares de pernas. No fim da vareta, segurava-se com os cinco últimos segmentos e se agitava no ar, numa valente tentativa de encontrar novo apoio. Não conseguindo êxito, virava-se em torno de sim mesmo e refazia o longo caminho. Então Der Heer  segurava o pauzinho com a outra mão, de modo que, quando a lagarta chegava ao ponto de partida, mais uma vez não achava aonde ir. Como um mamífero vivo enjaulado, a lagarta caminhou de um lado ao outro várias vezes; nas últimas passagens - Ellie teve a impressão -, com crescente impaciência. Ela começava a sentir pena da pobre criatura.

'Que programa maravilhoso existe na cabecinha dessa coisa!', exclamou Der Heer. 'Funciona sempre... Um programa ideal de fuga. E ela sabe como não cair. Quero dizer, o pauzinho está para todos os efeitos práticos, solto no ar. A lagarta nunca passa por essa experiência na natureza, pois o pauzinho está sempre ligado a alguma coisa. Você já imaginou, Ellie, como seria ter esse programa na sua cabeça? Quero dizer, seria óbvio para você que deveria fazer quando chegasse ao fim de um pauzinho? Você teria a impressão de estar raciocinando? Você ficaria imaginando como é que sabia balançar seus dez pés anteriores no ar, enquanto se segurasse firme com os outros dezoito?'

Ellie inclinou ligeiramente a cabeça e examinou Der Heer, não a lagarta. A ele não parecia difícil imaginá-la como um inseto. Tentou responder de modo neutro, lembrando-se de que para ele aquilo representava um interesse profissional.

'Que vai fazer com a lagarta agora?'
'Ora, vou colocá-la na grama. Que mais poderia fazer?'
'Algumas pessoas a matariam'
'É difícil matar uma criatura depois que se tem um vislumbre de sua consciência.'"

E a estória segue de forma brilhante e encantadora, em uma alegoria de como seria diferente o mundo se o víssemos através dos olhos de Der Heer.


(Carl Sagan)