quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

LITERATURA: Clarice Lispector (Brasil / 1920 - 1977)

Sinto profundamente inspirado pela grande literatura. Incita uma leitura profunda da minha realidade quando a ela retorno. O mundo cria outra dimensão, mais sensível e diversa.

"Não, nem todo o tipo de lucidez é frieza."

"Não fui ao enterro. Porque nem todos morrem."


Clarice Lispector

ENSAIOS PESSOAIS: Sobre Amor e Sexo

Sexo é foda. Não sei ao certo se li em algum lugar essa frase, mas ela martela minha cabeça. É tudo muito complicado, as pessoas volta e meia não se entendem, os casais brigam e até às vezes fazem as pazes na cama. Porque sexo é foda demais!

"Você tem que casar com uma mulher que seja sua amiga, sua parceira", me disse um sábio amigo. Claro. Mas de preferência que ela seja muito boa de cama. Vejo alguns jovens amigos abdicando de uma vida sexual plena, aquela satisfatória, aquela vida sexual foda, e dedicarem-se a um relacionamento bonito, meigo, doce, e morno.

Vejo relacionamentos onde o casal fecha o pau direto. Fecha o tempo mesmo e parece que a porrada vai comer. Mas tem uma coisa muito forte segurando a relação. Preciso dizer? Não. É ali que a coisa flui, é ali que funciona o bagulho, na tchaca tchaca, compreende? Nestes casos, o casal esquece de que é feita uma relação harmônica entre dois seres humanos, o que importa é o Grand Finale, um orgasmo inigualável, incompreensível, nunca imaginado, mas sim, descoberto.

O que nós queremos? Simples: alguém que nos leve aos céus no amor e no sexo. Porque amor sem sexo bom é amizade. E sexo sem amizade é loucura, é bom, e ao mesmo tempo insano.

É querer demais que alguém encaixe perfeitamente em nós? Alguém que olhe de forma doce e sinta quem somos, que conheça nossas manias e até goste delas (talvez seja demais).Que conheça carinhos e palavras belas, uma pessoa generosa e sincera. Que com os olhos penetre em nosso ser e atravesse a carne comunicando sem pronunciar palavras: "Vou matar você de tesão".

E que reine sobre nosso corpo soberana, essa pessoa. Que não tenha apenas pensamentos e intenções vorazes, mas também mãos ágeis para satisfazer com perícia todos estes desejos de carne alucinada. Como uma receita da qual não nos fartamos nunca, apenas desejamos mais.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

METAFÍSICA: Fritjof Capra (Áustria / 1939 - hoje)

O PONTO DE MUTAÇÃO pg.389

Regressar a uma escala mais humana não significará um retorno ao passado, mas exigirá, pelo contrário, o desenvolvimento de novas e engenhosas formas de tecnologia e organização social. Grande parte da nossa tecnologia convencional, consumidora intensiva de recursos e altamente centralizada, é hoje obsoleta. Energia nuclear, carros de alto consumo de gasolina, agricultura subsidiada pelo petróleo, instrumentos computadorizados de diagnóstico e muitos outros empreendimentos de alta tecnologia são antiecológicos, inflacionários e perniciosos para a saúde. Elas devem ser substituídas por novas formas de tecnologia, que incorporem princípios ecológicos e sejam compatíveis com o novo sistema de valores.



Muitas destas tecnologias alternativas já estão sendo desenvolvidas. Tendem a ser descentralizadas e tendem a operar em pequena escala, a ser sensíveis às condições locais e planejadas para aumentar a auto-suficiência, propiciando, assim, um grau máximo de flexibilidade. São frequentemente qualificadas de tecnologias brandas, porque seu impacto sobre o meio ambiente é substancialmente reduzido pelo uso de recursos renováveis e por uma constante reciclagem de materiais. Coletores de energia solar, geradores eólicos, lavoura orgânica, produção e processamento regional e local de alimentos, e reciclagem de produtos residuais, são exemplos de tais tecnologias brandas. Elas incorporam os princípios observados nos ecossistemas naturais; refletem, pois, a sabedoria sistêmica. Como observou Schumacher, “a sabedoria exige uma nova orientação da ciência e da tecnologia para o orgânico, para o moderado, o não-violento, o elegante e o belo”. Tal direcionamento da tecnologia oferece enormes oportunidades para a criatividade, o espírito empreendedor e a iniciativa da humanidade. As novas tecnologias não são, em absoluto, menos sofisticadas que as antigas, mas seu refinamento é de uma espécie diferente. Aumentar a complexidade deixando simplesmente que tudo cresça não é difícil, mas recuperar elegância e flexibilidade requer sabedoria e visão criativa.


À medida que nossos recursos físicos se tornam cada vez mais escassos, também se evidencia que devemos investir mais nas pessoas – o único recurso que possuímos em abundância. Com efeito, a consciência ecológica torna óbvio que temos que conservar nossos recursos físicos e desenvolver nossos recursos humanos. Em outras palavras, o equilíbrio ecológico requer pleno emprego. É isso, precisamente, o que novas tecnologias facilitam. Operando em pequena escala e sendo descentralizadas, elas tendem a se tornar consumidoras intensivas de mão-de-obra, ajudando, portanto, a estabelecer um sistema econômico não inflacionário e ambientalmente benigno.


A mudança de tecnologias pesadas para brandas é mais urgentemente necessária nas áreas relacionadas com a produção de energia. As raízes mais profundas de nossa atual crise energética situam-se nos modelos de produção e consumo perdulário que se tornam característicos de nossa sociedade. Para resolver a crise não precisamos de mais energia, o que apenas agravaria nossos problemas, mas de profundas mudanças em nossos valores, atitudes e estilos de vida. Entretanto, ao mesmo tempo em que perseguimos esta meta a longo prazo, também devemos mudar nossa produção de energia dos recursos não renováveis para os renováveis, e das tecnologias pesadas para as brandas, a fim de alcançarmos o equilíbrio ecológico.

terça-feira, 30 de julho de 2013

FILOSOFIA: Deepak Chopra (Índia / 1946-hoje)

"O ego toma tudo pessoalmente, o que acaba sendo um grande obstáculo; a experiência está acontecendo para "mim". O budismo dispende muito tempo tentando dissipar a ideia de que este "mim" tenha algum direito de reivindicar a experiência. Em vez disso, dizem os budistas, a experiência se desenrola por si própria, e você, como experimentador, é sempre um canal. Dessa forma produzimos formulações do tipo "o pensamento é o pensamento em si". Pode ser desconcertante desenredar as complexidades de uma afirmação tão simples como "ser é", ou "o dançarino é a dança". Ainda assim, o ponto essencial é pratico: quanto menos você tomar a sua vida pessoalmente, maior a facilidade com que ela fluirá através de você. Aguardar com tranqüilidade funciona. Aguardar com ansiedade não funciona. Nem tampouco assumindo que cada experiência o eleva ou derruba. O fluxo da vida não seleciona em colunas de mais ou menos. Tudo tem seu próprio valor intrínseco, medido em energia, criatividade, inteligência e amor. Para encontrar esses valores, a pessoa deve parar de inquirir "que bem isso pode me fazer?". Em vez disso, você atesta o que acontece, deslumbrando-se com tudo."


Deepak Chopra

sexta-feira, 26 de julho de 2013

LITERATURA: Isabel Allende (Peru/Chile / 1942-hoje)

"No que se refere à alimentação e à sexualidade, a natureza exige um mínimo, bastante simples, destinado à preservação do indivíduo e da espécie; o resto são ornamentos ou subterfúgios que inventamos para festejar a vida. A imaginação é um demônio persistente, e sem ela o mundo seria branco e preto, viveríamos em um paraíso de militares, fundamentalistas e burocratas, em que a energia hoje investida na boa mesa e no bom amor seria destinada a outros fins, como matar uns aos outros com maior disciplina. Se nos alimentássemos apenas de frutas silvestres e copulássemos com a inocência dos coelhos, pouparíamos muita literatura sobre esses temas, milhares de arvores escapariam da fatalidade de se transformarem em polpa e os sete pecados capitais não incluiriam a luxuria e a gula, e com isso aumentaria significativamente o número de almas no Paraíso. Mas a natureza nos dotou - ou nos maldisse - de um cérebro insaciável, capaz de imaginar não só todo tipo de comidas maravilhosas e variantes amorosas, como também as culpas e castigos correspondentes."


Isabel Allende

sábado, 2 de março de 2013

FILOSOFIA: Bruce Lee (China/Estados Unidos / 1940-1973)


"O maior engano é antecipar o desenlance da luta.
Não pense na vitória ou na derrota.
Deixe que as coisas aconteçam.
E tudo se enquadrará no momento certo.

Estar consciente de si mesmo é um dos piores obstáculos.
Deve-se esquecer a habilidade adquirida para obter perícia.
Para transcender o Karma, deve-se saber usar a mente e a vontade."


Bruce Lee

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

LITERATURA: Virgil Gheorghiu (Romênia / 1916 - 1992)


"Os 'cidadãos' não vivem nos matos nem na selva, mas nos escritórios; contudo são mais cruéis que os animais ferozes da selva; nasceram do cruzamento do homem com as máquinas. É uma espécie bastarda, a raça mais poderosa atualmente em toda a superfície da terra. Os seus rostos parecem-se com os dos homens, e muitas vezes até arriascamo-nos a confundi-los com eles, mas percebemos imediatamente que não se comportam como homens, senão como máquinas; em vez de coração, tem cronômetros... são cidadãos... estranho cruzamento. Invadiram toda a terra".

"Uma sociedade tecnocratizada não pode criar espírito e está por consequência, lançada aos monstros".


Virgil Gheorghiu

sábado, 1 de dezembro de 2012

ENSAIOS PESSOAIS: De que adianta?

“Que diferença isso fará para a Terra? E que diferença isso fará para o Universo?” Estas duas perguntas vieram a mim como respostas, ironicamente, através da fala de um amigo, que escutava minhas queixas pacientemente. O contexto? Um sonho ‘tolo’ sobre fazer diferença e operar uma mudança, buscar a evolução.

Estamos em sete bilhões de humanos, aproximadamente... um número enorme. A Terra tem 4.5 bilhões de anos (voltas em torno do Sol), e nossa existência como Homo sapiens data de 35 mil anos. Essa espécie perambula sobre a crosta terrestre há apenas 0,0000077% de toda a existência do planeta. Em meados de 1.600 A.C os primeiros carros com rodas (carroças) andavam a uma velocidade de 30 km/h. Em 1850 as primeiras locomotivas ainda arrastavam-se a aproximadamente 50 km/h. Nos últimos 150 anos as coisas tomaram proporções inimagináveis. Hoje os satélites viajam a 30 mil km/h em órbita da Terra. Ao transportar estes dados para um gráfico, vemos uma apática linha horizontal que torna-se abrupta e vertiginosamente uma linha quase vertical!


De repente tudo tornou-se hiper. Criamos milhares de artefatos tecnológicos, remédios, parques de diversão, automóveis caros e luxuosos e relógios pomposos que medem o tempo como quaisquer outros. Empreendemos uma jornada material e constantemente vemos as pessoas (seres da nossa mesma espécie) preocupados com a conquista exclusiva do mundo físico, como se fosse esta a última finalidade da vida: possuir. Na década de noventa os gastos militares mundiais somavam um trilhão de dólares ao ano. Uma considerável quantia. Para “proteger” quem? De quê? Não ouso afirmar que existe um limite para a capacidade criativa (ou destrutiva) dos homens, mas acredito que estamos cada vez mais próximos de descobrir.  Na verdade, chego mesmo à conclusão de que criamos distrações demais para nos desviar do verdadeiro significado da vida.


UMA  GRANDE  SURUBA  

“Todo mundo tem dois pais, quatro avós, oito bisavós, dezesseis trisavós etc. A cada geração que retrocedemos, temos duas vezes mais antepassados em linha direta. Se cada geração tem, vamos dizer, 25 anos, 64 gerações atrás equivalem a 64 X 25 = 1600 anos atrás, isto é, pouco antes da queda do Império Romano. Assim, cada um de nós que está vivo hoje tinha, no ano 400, uns 18,5 quintilões de ancestrais - ou é o que parece. E isso sem falar nos parentes colaterais. Mas é muito mais que a população da Terra, então ou agora; é muito mais que o número de seres humanos que já viveram. Alguma coisa está errada com o nosso cálculo. O quê? Bem, supusemos que todos esses ancestrais em linha direta fossem pessoas diferentes. Mas, claro, não é o caso. O mesmo ancestral está relacionado conosco por muitas linhas diferentes. Somos repetida e multiplamente ligados a cada um de nossos parentes - um imenso número de vezes, no caso dos parentes mais distantes.  Se retrocedermos bastante, quaisquer duas pessoas sobre a Terra têm um ancestral em comum.” (Carl Sagan)


*As informações utilizadas como base de dados para este texto foram retiradas de três livros geniais escritos por brilhantes cientistas:

- A Teia da Vida, de Fritjof Capra (1996)
- O Choque do Futuro, de Alvin Toffler (1971)
- Bilhões e Bilhões, de Carl Sagan (1997)



domingo, 23 de setembro de 2012

METAFÍSICA: Fritjof Capra (Áustria / 1939 - hoje)


O empobrecimento espiritual e a perda da diversidade cultural por efeito do uso excessivo de computadores é especialmente sério no campo da educação. Como Neil Postman comentou de maneira sucinta: “Quando um computador é utilizado para aprendizagem, o significado de ‘aprendizagem’ muda.”  O uso de computadores na educação é, com freqüência, saudado como uma revolução que transformará todas as facetas do processo educacional. Essa visão é vigorosamente promovida pela poderosa indústria de computadores, que encoraja os professores a utilizarem  computadores como ferramentas educacionais em todos os níveis – até mesmo no jardim-de-infância e no período pré-escolar! – sem sequer mencionar os muitos efeitos nocivos que podem resultar dessas práticas irresponsáveis.

O uso de computadores nas escolas baseia-se na visão, hoje obsoleta, dos seres humanos como processadores de informações, o que reforça continuamente concepções mecanicistas errôneas sobre o pensamento, enquanto que,  na realidade, a mente humana pensa com idéias e não com informações. Como Theodore Roszak mostra detalhadamente em The Cult of Information, as informações não criam idéias; as idéias criam informações. Idéias são padrões integrativos que não derivam da informação, mas sim, da experiência.

No modelo do computador para a cognição, o conhecimento é visto como livre de cotexto e valor, baseado em dados abstratos. Porém, todo o conhecimento significativo é conhecimento contextual, e grande parte dele é tácita e vivencial. De maneira semelhante, a linguagem é vista como um conduto ao longo do qual são comunicadas informações “objetivas”. Na realidade, como C. A. Bowers argumentou eloqüentemente, a linguagem é metafórica, transmitindo entendimentos tácitos compartilhados no âmbito de uma cultura.

(trecho de conclusão da segunda parte do livro A TEIA DA VIDA)



Fritjof Capra

sexta-feira, 27 de julho de 2012

FILOSOFIA: Friedrich Nietzsche (ALEMANHA / 1844 - 1900

Friedrich Nietzsche 


"Do novo ídolo

- Nalguns lugares há ainda povos e rebanhos, mas não entre nós, meus irmãos; entre nós há Estados.
- Estado? Que é isso? Vamos! Apurai os ouvidos, porque agora vou falar-vos da morte dos povos.
- Estado é o nome do mais frio de todos os monstros gelados. Aliás, ele mente duma maneira fria e a mentira que sai da sua boca é esta: 'Eu, o Estado, sou o povo' .
- Mentira! Eram criadores aqueles que criaram os povos e por cima deles suspenderam uma fé e um amor: deste modo serviam a vida.
- São destruidores aqueles que armam ciladas à multidão e chamam a isso Estado: suspendem por cima deles uma espada e cem cobiças
- No lugar onde ainda existe um povo, este não tolera o Estado e odeia-o como um mau-olhado, como um pecado contra os costumes e o direito.
- Dou-vos este sinal: cada povo fala a sua língua acerca do bem e do mal: o vizinho não a compreende. Inventou a sua linguagem nos costumes e no direito. 
- Mas o Estado mente em todas as línguas acerca do bem e do mal; tudo o que ele diga é mentira - tudo o que ele tenha é roubo.
- Nele tudo é falso: morde com dentes roubados, o cão malvado. Até as suas entranhas são falsas. 
- Confusão das línguas do bem e do mal: dou-vos este sinal como sinal do Estado. Na verdade, este sinal quer dizer vontade de morte! Na verdade, ele chama os pregadores da morte! 
- Demasiados homens vêm ao mundo: o Estado foi inventado para supérfluos! 
- Vede, pois, como os atrai, àqueles que estão a mais! Como ele os engole, os mastiga e os rumina!
- 'Nada há maior do que eu sobre a terra: sou o dedo soberano de Deus' - assim ruge o monstro. E não são unicamente os de grande orelhas e de vista curta que se põem de joelhos! 
- Oh! Também a vós, almas grandes, ele murmura sombrias mentiras! Oh! Como ele adivinha os corações ricos que gostam de fazer prodigalidades! 
- Até mesmo a vós vos adivinha vencedores do velho deus! O combate fatigou-vos e agora essa fadiga serve para o novo ídolo! 
- Esse novo ídolo desejaria rodear-se de heróis e de homens honrados! Gosta de se aquecer ao sol da boa consciência - o frio monstro! 
- O novo ídolo dar-vos-á tudo se vós o adorais: é desse modo que compra o brilho da vossa virtude e o vosso olhar altivo
- Através de vós quer atrair aqueles que estão a mais! Trata-se da invenção duma marcha infernal, dum cavalo-de-batalha da morte tilintando sob os arreios das honras divinas! 
- De facto, é a invenção duma morte para a maioria, duma morte que se vangloria a si própria de ser a vida: na realidade, um serviço prestado a todos os pregadores da morte! 
- Dou o nome de Estado ao lugar em que todos, bons e maus, se perdem a si mesmos; Estado, o lugar em que o lento suicídio de todos se chama 'a vida'. 
- Vede, pois, esses que estão a mais! Apropriam-se das obras dos inventores e dos tesouros dos sábios. Chamam ao seu roubo cultura e tudo para eles se torna em doença e males. 
- Vede, pois, esses que estão a mais! Estão sempre doentes, vomitam a sua bílis, e a isso chamam jornal. Devoram-se uns aos outros e nem sequer se podem digerir. 
- Vede, pois, esses que estão a mais! adquirem riquezas e só conseguem tornar-se mais pobres. Esses impotentes querem o poder e, antes de todo o resto, a alavanca do poder, ou seja, muito dinheiro! 
- Vede-os trepar esses ágeis macacos! Sobem uns por cima dos outros e empurram-se para a lama e para o abismo.
- Querem aproximar-se todos do trono: é essa a sua loucura - como se a felicidade estivesse no trono! Muitas vezes é a lama que está no trono ou então é o trono que assenta na lama. Aos meus olhos, são todos loucos, macacos trepadores e pessoas febris. O monstro frio, o seu ídolo, cheira mal: todos esses idólatras cheiram mal. 
- Quereis sufocar no meio das exalações das suas gargantas e dos seus apetites, meus irmãos? Mais vale quebrardes as janelas e saltardes para fora.
- Evitai o mau cheiro! Afastai-vos da idolatria dos supérfluos! 
- Evitai o mau cheiro! Afastai-vos do fumo desses sacrifícios humanos! 
- Apesar de tudo, a terra agora ainda está livre para as grandes almas. Há ainda muitos lugares vazios para aqueles que estão sozinhos ou que têm a sua solidão a dois, lugares onde sopra o dor dos mares silenciosos. 
- Há ainda uma vida livre para as grandes almas. Na verdade, quem pouco possui também pouco é possuído: abençoada seja a pequena pobreza! 
- Precisamente onde termina o Estado começa o homem que não está a mais: aí começa o cântico da necessidade, a melodia única e incomparável.
Olhai bem, portanto, meus irmãos, para onde termina o Estado! Não vedes o arco-íris e a ponte do Super-Homem?

Assim falava Zaratrustra."

Trecho do livro "Assim falou Zarastustra"

sábado, 23 de junho de 2012

FILOSOFIA: Lewis Mumford (EUA / 1885 - 1990)

Lewis Mumford

Em seu segundo livro, A Condição de Homem (1930), o sociólogo americano discorre sobre a forma e as implicações de se viver em sociedades, que começaram a criar forma logo com o advento da imprensa, um século após o Renascimento. Na Europa, começaram a fundar-se novas escolas, universidades e mesmo pesquisadores e curiosos autônomos, grandes nomes da ciência e filosofia, como Galileu, Newton, Voltaire, Kant, Shakespeare e todos os pré-contemporâneos dos quatro séculos seguintes. Mumford é diversas vezes brilhante e romântico ao analisar este fenômeno histórico com a sua parcialidade e interpretação:


"Quando despojamos o homem de todas as suas funções como "membro de uma raça, povo, partido, família ou corporação", estamos reduzindo o domínio da personalidade; pois a personalidade emerge, não por um desapego do meio social, mas por uma assimilação e encarnação mais completa desse meio.

A integridade do indivíduo depende de sua associação dentro de uma comunidade integral. Aqueles que fugiam aos direitos e deveres da vida numa comunidade não obtinham liberdade. Ou ficavam flutuando num sonho vão em que se compraziam, ou submergiam até uma existência animal; existência de que davam prova por sua disposição para violência, para a brutalidade, para a malvadez.

Em verdade, o desapego social é a morte. A todos os instantes o indivíduo desapegado é alentado pelos labores dos outros homens, pelos conhecimentos que ele adquiriu na sociedade, pelas esperanças e sonhos que evocam suas origens sociais.


Quando o Novo Mundo ideológico passou a adquirir uma forma precisa, foi-se tornando evidente que, para ingressar nele, tinha-se que passar por uma preparação especial. Entregues a si mesmos, a maior parte dos membros da comunidade continuavam indolentemente apegados às formas estabelecidas da religião, do pensamento e da técnica: cavavam, exploravam as minas e construíam como antes tinham feito seus antepassados, seguindo o mesmo caminho, os mesmo sulcos já bem marcados da rotina. Qual então o instrumento essencial que venceu essa inércia? Nada menos que a palavra impressa. A invenção da imprensa com tipos móveis uniformes, a qual no século XVI se estendera com uma rapidez incrível desde a Coréia até a Europa, foi o novo mensageiro da vida pública. Aqueles que liam a palavra impressa passaram a fazer parte de uma nova comunidade, a comunidade dos letrados; em lugar de se contentarem com o pouco que podiam ver, ouvir, ou sentir em suas imediações, entraram a constituir um grupo cada vez maior de homens que passavam uma porção maior de seus dias ocupados com experiências de segunda mão, sensações simuladas e percepções verbais de fatos e coisas até então longe da vista e do coração. O livro tornou-se o fator principal da comunidade;  e o processo de corporificação: adquirir realidade era existir no papel impresso.


A imprensa acabou com o monopólio da cultura por uma classe. Embora tal monopólio  fosse por algum tempo e até certo ponto conservado, por causa do alto capital exigido para instalação de um prelo e por causa também dos privilégios restritivos conferidos pelo estado a fim de controlar a produção e distribuição de livros, o fato é que com o tempo a maquina tipográfica veio a ser um grande fator de difusão da cultura e nivelamento cultural. Nenhum tesouro no México ou em Cuzco se compara em valor à herança imaterial que, pela primeira vez na história, agora se oferecia à posse e gozo da raça."

Passeando pelas 15 páginas que seguem neste mesmo capítulo, Mumford aborda meia dúzia de grandes eventos sociopolíticos decorrentes do advento da imprensa, como o Fascismo, o Totalitarismo, a impressão em livros e distribuição das descobertas dos cientistas e o a importância dos livros nas Universidades como fatores de transformação cultural. Infelizmente já naqueles tempos, década de trinta, ele acaba por concluir o capítulo com um parágrafo melancólico e assustador, donde é passível a interpretação de que a felicidade e a plena satisfação humanas não residem apenas na tecnologia e nas facilidades disponibilizadas pela ciência, mas na profunda espiritualidade e comunhão de nós, humanos.
O Homem Moderno preparou-se para a conquista do mundo exterior; tinha fé nas maquinas e essa fé foi justificada pelas obras. Projetou sobre a sociedade adulta o sonho infantil de poder ilimitado e antecipou-se a uma época em que o botão elétrico fazia surgir a comida com a mesma facilidade com que o choro do infante faz vir-lhe à boca a mamadeira ou o seio. Porém depois de quatro séculos de esforço estrênuo seus míticos poderes continuam ainda ilusórios. A despeito de suas maquinas, ele continua passando fome no meio da fartura; não obstante seu conhecimento de estrelas remotas e de mundos intra-atômicos, a civilização que ele criou deu origem a uma barbaria que acaba de levar a ruína e a devastação a todos os pontos do planeta. Numa serie de guerras mundiais e mundiais revoluções, o que o Homem Moderno está de fato penosamente conseguindo é suicidar-se."


Particularmente acredito sermos muito poucos ainda (passados quase cem anos) que atuamos como catalizadores de uma mudança no plano espiritual. Onde todos fazemos o bem para a humanidade e a biodiversidade, a atmosfera terrestre. São poucos ainda que pensam globalmente e agem localmente, como Capra havia dito em 1980 através das palavras do economista Schumacher. Basta olhar criticamente os atuais acontecimentos como a farsa que encenam os políticos na Rio+20, ou ver a máquina de fazer dinheiro e padronizar costumes que é a TV nacional. É possível olhar com esperança para o futuro, ainda creio nisto, mas essa geração precisa realmente despertar, o aumento populacional e a destruição global entraram em uma curva acentuada, em progressão geométrica, é preciso puxar os freios antes que seja tarde demais.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

FILOSOFIA: Carl Sagan (EUA / 1934-1996)

"Se nos recusarmos radicalmente a reconhecer em que pontos somos propensos a cair em erro, podemos ter quase certeza que o erro - mesmo o engano sério, os erros profundos - nos acompanhará para sempre. Mas, se somos capazes de uma pequena auto-avaliação corajosa, quaisquer que sejam as reflexões tristes que possa provocar, as nossas chances melhoram muito."



Carl Sagan

sexta-feira, 1 de junho de 2012

LITERATURA: Fernando Pessoa (Portugal / 1888 - 1935)

Fernando Pessoa


Passear pelo desassossego de Fernando Pessoa é encontrar-se e perder-se simultaneamente na existência, ele preenche e esvazia o que somos, levanta questões fundamentais. O "Livro do Desassossego" são fragmentos de percepções pessoais, escritos no inicio do século passado, são pérolas perturbadoras de um gênio dedicado a buscar a compreensão - inatingível - para os sentimentos humanos, dai o desassossego completo, pois Pessoa estava obcecado por esta idéia.  

"Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar um começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo, porque não tenho alma para suspender." 

"E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entonações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouví-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que não me lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que não me recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não são pegados."

sábado, 26 de maio de 2012

LITERATURA: Milan Kundera (Tchecoslováquia / 1929 - hoje)


Milan Kundera

"Não existe meio de verificar a decisão acertada, pois não existe meio de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro."

"Em trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer experimentos para verificar a exatidão de uma hipótese científica. Mas o homem, por ter apenas uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese por meio de experimentos, por isso não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a seu sentimento."

segunda-feira, 9 de abril de 2012

LITERATURA: Vinicius de Moraes (Brasil / 1913 - 1980)

Ler Elegia Quase uma Ode em voz alta, proclamando, ou ouví-la proclamada por um intérprete que consiga vivenciá-la e vociferá-la em seus lábios e peito causa uma sensação única, de silêncio, de paz, de contemplação. Parece que qualquer palavra proferida ao fim do poema maculará os versos do grande gênio Vinicius.


Vinicius de Moraes


ELEGIA QUASE UMA ODE

Meu sonho, eu te perdi; tornei-me em homem.

O verso que mergulha o fundo de minha alma
É simples e fatal, mas não traz carícia...
Lembra-me de ti, poesia criança, de ti
Que te suspendias para o poema como que para um seio no espaço.
Levavas em cada palavra a ânsia
De todo o sofrimento vivido.

Queria dizer coisas simples, bem simples
Que não ferissem teus ouvidos, minha mãe.
Queria falar em Deus, falar docemente em Deus
Para acalentar tua esperança, minha avó.
Queria tornar-me mendigo, ser miserável
Para participar de tua beleza, meu irmão.
Queria, meus amigos... queria, meus inimigos...
Queria...
queria tão exaltadamente, minha amiga!

Mas tu, Poesia
Tu desgraçadamente Poesia
Tu que me afogaste em desespero e me salvaste
E me afogaste de novo e de novo me salvaste e me trouxeste
À borda de abismos irreais em que me lançaste e que depois eram abismos verdadeiros
Onde vivia a infância corrompida de vermes, a loucura prenhe do Espírito Santo, e idéias em lágrimas, e castigos e redenções mumificados em sêmen cru
Tu!
Iluminaste, jovem dançarina, a lâmpada mais triste da memória…
Pobre de mim, tornei-me em homem.
De repente, como a árvore pequena
Que à estação das águas bebe a seiva do húmus farto
Estira o caule e dorme para despertar adulta
Assim, poeta, voltaste para sempre.
No entanto, era mais belo o tempo em que sonhavas...

Que sonho é minha vida?
A ti direi que és tu, Maria Aparecida!
A vós, no pudor de falar ante a vossa grandeza
Direi que é esquecer todos os sonhos, meus amigos.
Ao mundo, que ama a lenda dos destinos
Direi que é o meu caminho de poeta.
A mim mesmo, hei de chamá-lo inocência, amor, alegria, sofrimento, morte, serenidade
Hei de chamá-lo assim que sou fraco e mutável
E porque é preciso que eu não minta nunca para poder dormir.
Ah
Devesse eu jamais atender aos apelos do íntimo...

Teus braços longos, coruscantes; teus cabelos de oleosa cor; tuas mãos musicalíssimas; teus pés que levam a dança prisioneira; teu corpo grave de graça instantânea; o modo com que olhas o âmago da vida; a tua paz, angústia paciente; o teu desejo irrevelado; o grande, o infinito inútil poético! tudo isso seria um sonho a sonhar no teu seio que é tão pequeno...

Ó, quem me dera não sonhar mais nunca
Nada ter de tristezas nem saudades
Ser apenas Moraes sem ser Vinicius!
Ah, pudesse eu jamais, me levantando
Espiar a janela sem paisagem
O céu sem tempo e o tempo sem memória!
Que hei de fazer de mim que sofro tudo
Anjo e demônio, angústias e alegrias
Que peco contra mim e contra Deus!
Às vezes me parece que me olhando
Ele dirá, do seu celeste abrigo:
Fui cruel por demais com esse menino...
No entanto, que outro olhar de piedade
Curará neste mundo as minhas chagas?
Sou fraco e forte, venço a vida: breve
Perco tudo; breve, não posso mais...
Oh, natureza humana, que desgraça!
Se soubesses que força, que loucura
São todos os teus gestos de pureza
Contra uma carne tão alucinada!
Se soubesses o impulso que te impele
Nestas quatro paredes de minha alma
Nem sei o que seria deste pobre
Que te arrasta sem dar um só gemido!
É muito triste se sofrer tão moço
Sabendo que não há nenhum remédio
E se tendo que ver a cada instante
Que é assim mesmo, que mais tarde passa
Que sorrir é questão de paciência
E que a aventura é que governa a vida
Ó ideal misérrimo, te quero:
Sentir-me apenas homem e não poeta!

E escuto... Poeta! triste Poeta!
Não, foi certamente o vento da manhã nas araucárias
Foi o vento... sossega, meu coração; às vezes o vento parece falar...
E escuto... Poeta! pobre Poeta!
Acalma-te, tranqüilidade minha... é um passarinho, só pode ser um passarinho
Eu nem me importo... e se não for um passarinho, há tantos lamentos nesta terra...
E escuto... Poeta! sórdido Poeta!
Oh angústia! desta vez... não foi a voz da montanha? Não foi o eco distante
Da minha própria voz inocente?
Choro.
Choro atrozmente, como os homens choram.
As lágrimas correm milhões de léguas no meu rosto que o pranto faz gigantesco.
Ó lágrimas, sois como borboletas dolorosas
Volitais dos meus olhos para os caminhos esquecidos…
Meu pai, minha mãe, socorrei-me!
Poetas, socorrei-me!
Penso que daqui a um minuto estarei sofrendo
Estarei puro, renovado, criança, fazendo desenhos perdidos no ar…
Venham me aconselhar, filósofos, pensadores
Venham me dizer o que é a vida, o que é o conhecimento, o que quer dizer a memória
Escritores russos, alemães, franceses, ingleses, noruegueses
Venham me dar idéias como antigamente, sentimentos como antigamente
Venham me fazer sentir sábio como antigamente!
Hoje me sinto despojado de tudo que não seja música
Poderia assoviar a idéia da morte, fazer uma sonata de toda a tristeza humana
Poderia apanhar todo o pensamento da vida e enforcá-lo na ponta de uma clave de Fá!

Minha Nossa Senhora, dai-me paciência
Meu Santo Antônio, dai-me muita paciência
Meu São Francisco de Assis, dai-me muitíssima paciência!
Se volto os olhos tenho vertigens
Sinto desejos estranhos de mulher grávida
Quero o pedaço de céu que vi há três anos, atrás de uma colina que só eu sei
Quero o perfume que senti não me lembro quando e que era entre sândalo e carne de seio.
Tanto passado me alucina
Tanta saudade me aniquila
Nas tardes, nas manhãs, nas noites da serra.
Meu Deus, que peito grande que eu tenho
Que braços fortes que eu tenho, que ventre esguio que eu tenho!
Para que um peito tão grande
Para que uns braços tão fortes
Para que um ventre tão esguio
Se todo meu ser sofre da solidão que tenho
Na necessidade que tenho de mil carícias constantes da amiga?
Por que eu caminhando
Eu pensando, eu me multiplicando, eu vivendo
Por que eu nos sentimentos alheios
E eu nos meus próprios sentimentos
Por que eu animal livre pastando nos campos
E príncipe tocando o meu alaúde entre as damas do senhor rei meu pai
Por que eu truão nas minhas tragédias
E Amadis de Gaula nas tragédias alheias?

Basta!
Basta, ou dai-me paciência!
Tenho tido muita delicadeza inútil
Tenho me sacrificado muito demais, um mundo de mulheres em excesso tem me vendido
Quero um pouso
Me sinto repelente, impeço os inocentes de me tocarem
Vivo entre as águas torvas da minha imaginação
Anjos, tangei sinos
O anacoreta quer a sua amada
Quer a sua amada vestida de noiva
Quer levá-la para a neblina do seu amor...

Mendelssohn, toca a tua marchinha inocente
Sorriam pajens, operárias curiosas
O poeta vai passar soberbo
Ao seu abraço uma criança fantástica derrama os óleos santos das últimas lágrimas
Ah, não me afogueis em flores, poemas meus, voltai aos livros
Não quero glórias, pompas, adeus!
Solness, voa para a montanha, meu amigo
Começa a construir uma torre bem alta, bem alta...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

SOCIOLOGIA: Domenico De Masi (Itália / 1938 - hoje)

"O telefone celular, a televisão e a Internet já redefiniram a nossa relação com o espaço e com o tempo... A potência crescente dos computadores já alterou a nossa percepção do mundo. É portanto provável que a adoção de tecnologias ainda mais novas comporte uma maior tolerância em relação à diversidade, feedbacks mais rápidos e intensos, velozes mudanças de opinião e o nascimento de novos lobbies sociais e novos grupos de pressão, digressão das comunidades tradicionais... recomposições de novas comunidades fundadas no compartilhamento dos gostos, dos interesses e das orientações e na busca de soluções 'sob medida'."

Domenico de Masi

"Por outo lado, as oportunidades devidas ao aumento das informações disponíveis serão colhidas numa medida diferente, segundo as capacidades socioeconômicas, culturais, críticas, de filtragem e de seleção de cada um dos sujeitos sociais, com o perigo de uma posterior bifurcação entre o mundo dos privilegiados e dos excluídos (digital devide).


"As tecnologias da informação permitirão, por uma parte, formas de democracia telemática, direta, de tempo real; por outra, tentarão uma elite muito restrita a dominar todo o sistema social, favorecida pelo poder manipulador dos seus mass midia e pelo desinteresse, inculado sobretudo nos jovens, em relação ao exercício da política e dos valores de solidariedade. A New Economy subordinará a política à economia e a economia às finaças favorecida pelo crescente distanciamento entre a débil difusão da cultura humanista, cada vez mais desprezada, e a forte propagação da cultura técnica, sempre mais apreciada, causando a irresistível penetração da cultura de massa, posto avançado da mercantilização."

De Masi em 2002 já alertava-nos sobre os perigos do consumo de cultura de massa, processada em larga escala, de fácil digestão para a maior parte da população, criando alienação generalizada na maior parte das pessoas, principalmente nós, que vivemos no Terceiro Mundo. No Brasil o discurso televisivo e da maior parte das publicações e radiodifusões tem um nível baixíssimo, estampando ícones criados da noite para o dia, transformando a promessa de geração de empregos e crescimento da economia como redentores, uma espécie de tranquilizante mental e psíquico. Mas ao analisar minuciosamente os efeitos deste fenômeno social que tem menos de 60 anos, é visível uma série de doenças e desvios de comportamento sociais, inversão de valores e falta de espiritualidade em níveis patológicos alarmantes.

Como complemento e conclusão para este fabuloso e esclarecedor discurso de Domenico, selecionei um trecho de O Ponto de Mutação, livro escrito pelo gênio austríaco Fritjof Capra:

"Nos Estados Unidos, onde o consumo e o desperdício excessivos converteram-se em um modo de vida, 5% da população do mundo consomem atualmente um terço de seus recursos, com o consumo de energia per capita que é cerca do dobro do da maioria dos países europeus. Simultaneamente, as frustrações criadas e alimentadas por doses maciças de publicidade, combinadas com a injustiça social dentro da nação, contribuem para uma criminalidade e uma violência crescentes, além de outras patologias sociais. Esse triste estado de coisas é bem ilustrado pelo conteúdo esquizofrênico das revistas semanais. Metade das páginas estão cheias de histórias sombrias acerca de crimes violentos, desastre econômico, tensão política internacional e a corrida em direção à destruição global, enquanto a outra metade retrata gente feliz e despreocupada através de maços de cigarros, garrafas de bebidas alcoólicas e refulgentes carros novos. A publicidade na televisão influencia o conteúdo e a forma de todos os programas, incluindo os 'shows de notícias', e usa o tremendo poder sugestivo deste veículo - ligado durante seis horas e meia diárias pela família americana média - para modelar as imagens das pessoas, distorcer nestas o sentido da realidade e determinar suas opiniões, seus gostos e seu comportamento. A finalidade exclusiva desta prática perigosa é condicionar a audiência a comprar produtos anunciados antes, depois e durante cada programa."


Fritjof Capra

É interessante salientar que essa imagem do estilo de vida americano foi feita por Capra na década de 80, como uma doença do nosso tempo, e está cada vez mais agravada. Além disso teve um reflexo direto no comportamento dos brasileiros, que reproduzem este estilo de vida massificado e superficial, como podemos comprovar em qualquer rua das cidades nacionais.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

POESIA: Olavo Bilac (Brasil - 1865-1918)

Quanto ardor, paixão, entusiasmo de vida inunda Olavo Bilac. Ainda que a impossibilidade de atingir tal estado de consciência na juventude possa levar-lhe à melancolia, uma força motivadora, um sentimento expresso em versos é lançado sobre nós criaturas, para que possamos vislumbrar e inspirar-nos no brilho de sua cintilante astúcia.

Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.
Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!
Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,
Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!


Olavo Bilac


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

LITERATURA: José Saramago (Portugal / 1922 - 2010)

"Estranhos somos todos, até nós que aqui estamos, A quem te referes, A ti e a mim, ao teu senso comum e a ti mesmo, raramente nos encontramos para conversar, lá muito de tarde em tarde, e, se quisermos ser sinceros, só poucas vezes valeu a pena, Por minha culpa, Também por culpa minha, estamos obrigados por natureza ou condição a seguir caminhos paralelos, mas a distância que nos separa, ou divide, é tão grande que na maior parte dos casos não nos ouvimos um ao outro, Ouço-te agora, Tratou-se de uma emergência, as emergências aproximam, O que tiver de ser, será, Conheço essa filosofia, costumam chamar-lhe predestinação, fatalismo, fado, mas o que realmente significa é que farás o que te der na real gana, como sempre, Significa que farei aquilo que tiver de fazer, nada menos, Há pessoas para quem é o mesmo aquilo que fizeram e aquilo que pensaram que teriam que fazer, Ao contrário do que julga o senso comum, as coisas da vontade nunca são simples, o que é simples é a indecisão, a incerteza, a irresolução..."


José Saramago